domingo, 14 de junho de 2015


Atenção: Curto-circuito
Veias e feridas semi-desertas

As placas diziam 
"é proibido:
Ir
Vir
Ser
Sonhar"
Então não soube por onde começar

Ninguém é como todo mundo
Todo mundo não existe
Os outros são sempre inquilinos de um eu estranho


Outra pele é outra pele
Outra cidade são outras
Cores, cheiros e sons
Entre o (des) positivo
Que abre o (des) conhecido
Será o deslocamento muito longo
pelo segundo
Será tudo imprevisível
Apenas por cinco minutos?

Seremos receptáculos
E o que restará
Só as possibilidades das possibilidades
Quase sempre armadilhas imagéticas
Propagandas fonéticas
Virtualmente reais

A palavra fora de mim
Cortou pedaço de si
Por trás da beleza o cheiro de mofo
Tomava todo o jardim

Só se aprende o que se quer
Nem todos os livros nem toda experiência
Curam

Tanto fiz que cá estou
Tanto faz se foi demais
Tanto quis que desbotou
Mas
Aquela lua apressada exuberante
Dançava sob o tempo como os teus olhos
De sempre breve despedida

Estou vencida pelos prazos
Deixo escorrer por entre os ralos
O meu ser
Todas as rotas menos tediosas aparentam alternativas
Mas são apenas formas mais sofisticadas de servidão
Formas tortas de não


Deixei –me nos escombros da guerra
Entre o sonho e a realidade
Sem vencedores, vencidos ou sobreviventes
Apenas pedaços de era uma vez

“Da utopia”
O último filósofo dizia:
Se cata pedaços de vida que se pretendem inteiros
- e isso vicia

Vaguei pelas artérias do dia
Cujo sangue azul-dourado
Me manteve viva
Ansiei pelo que pudera
Não ser violência ou espera

Cortando a beleza suprema do outono
As bombas
Cercando a noite úmida
Não terão direito ao amanhã
Homens, mulheres e pequenos
Que nem chegaram e já foram expulsos
Que contornam de anonimato
Os becos dos becos dos becos
E ainda guardam um sorriso machucado
Pralgum dia de verão

Anônimos somos o processo
Seja do meio ou inverso
É aqui tudo o que nos guarda
E se no meio do caminho
O fluxo nos deságua
De qualquer forma
Seremos

Seremos conexão segura
Ponta de lança afiada
Contra a nova     [velha]
Ditadura
Seremos ancestrais
Futuros
Os frutos maduros
do agora

Embora hoje tudo tenha um peso a mais
Zona de aridez poética
Que lateja a cada instante
Havia um brilho ínfimo
Por entre as pedras portuguesas da noite
E o meu corpo arrastado de lúcida alucinação
Sóbria determinação
Pesando sobre o eixo do mundo

Estou sempre como aquela que acaba de chegar
Caminhando a beira-mar de mãos vazias

Quero dar-me ao desfrute do tempo
Porém hoje
Ele almoça e janta meu corpo

Somos todas forasteiras em nossa própria terra natal
Somos todas de alguma forma excluídas
Da consciência de nossa alma

Essa terra é um mito que carregamos nas costas
Todas as terras são mitos
E eu, retirante
Onde quer que esteja
Lançomelançomelançomelanço em direção
Ao sonho
Ao abrigo

Será inatingível
O som de cada indivíduo
A língua de cada existência
Espessa
Que se adensa pela vida
E é ela inteira tradução?


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