domingo, 1 de fevereiro de 2015

Do avesso


Agora eu vou decolar dessa vida bruta

Aquilo que foi antes 
hoje não me serviria
Aquilo que é agora
Tampouco me satisfaz

Eu quero só o meu canto e uma bananeira querida robusta de sombra

eu quero rabiscar os livros mais vendidos
e comer a sobremesa antes do jantar

Tudo bem

A música também tem compasso
Quando a vida é contraponto

Não sou Romeu nem Julieta
Mas carrego no meu peito
Uma puta tragédia brasileira

Todo respeito áquele que ainda se ama
Áquele que ainda se engana,
Devo confessar:
Muito prazer

E quem vai impedir o gato 
de pular de galho em galho
Quem vai dizer se é certo
Enfrentar de peito aberto
O que virá?

Diz pra mim se existe saída
Se ainda há força no mundo!

Agora eu vou me embrenhar nessa vida curta
Vou dar uma de maluca
Vou rir de qualquer maneira

Ou prefiro ser careta
Como o boi da cara preta
Fundando o meu próprio senso
Do que é
OUSAR

Enquanto você repara
Naquilo que eu pareço
Dá licença

Vou ali me jogar

No abraço

          Do mar



Por que é sempre rojão
Por que é sempre ferro e chumbo
                Entulhado no peito
Por que é sempre não?

Os pássaros andam calados
Ou anda surda a minha visão?

E o grito
                E o apelo
Que ando derramando
Estão na lista de espera?

Está a vida na lista de espera
Será a senha inválida
Será inválida
A minha natureza

Como ninguém vê
                as luas nem o cheiro de terra
Será que o sol se opõe?

Um dia verei meus sertões?
Um dia verei as veredas?

                Os vales






                                               Os abismos




Ou serei sempre um eco
Inaudível na multidão?
Mas imprestável ao sistema
Sem consenso
Consistente

Será a utopia meu único teto
E o sonho o meu feijão?

Só nos filmes americanos
Alguém arranjou um emprego
(e foi feliz com ele)

Só nos filmes americanos
Tem aquelas casas com jardim

Só nos filmes americanos
Que eu odeio

Tem carne nova na prateleira
Tem marca nova de ser humano
Custa um real
Custa um milhão

Tem refrão novo
Tem refrão velho
Tem novidade que já chega podre
Às minhas narinas

E além do mais tudo isso já deu
Já deu fome,
Já deu saudade
Mas já passou
Já deu vontade
Do avesso

Mas sabe-se lá
Se meu grito vai soar profundo
Se esse verso maldito vai durar

Mas chega menos perto
Pra eu poder te enxergar
Como eu

Agora eu vou encarar essa vida
Bruta ou não


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